sexta-feira, 7 de março de 2014

Vazio




Vazio...
Como quase estava acostumando, como mantra, sua mente repetia esse sentimento. As estrelas já haviam se deitado há algumas horas e na sala descansavam garrafas de vinhos baratos, iluminados palidamente pelo sol nublado de luz semi cinza. Ainda rolava na cama com uma preguiça matinal de quem há pouco passou a noite com a falta de coragem para dizer o que talvez não devesse, sufocando-se em palavras engasgadas e nunca pronunciadas às pessoas certas.

Seu olhar viajava por entre as paredes e janela do quarto, voltava no tempo, e quase sem querer, como uma rima de poetas pós-modernos, tropeçou na vontade de braços alegóricos de um passado que ainda teima em não continuar calado e esquecido. Gradativamente o peito apertava, como num lance de desejo de sumir daquele corpo e ir para outro que tivesse um pouco mais de sorte, fazendo-o lembrar de cada mulher que, recentemente, entrara pela porta da sala e ao contrário do que queriam ver, encontrava um homem de corpo imperfeito, barba por fazer, mente evasiva, olhar distante e coração como quase já estava acostumando... Vazio.

E tal sentimento não amenizava, não importando as companhias, que diariamente, quase que como um rito de passagem de noite, acompanhava em caminhada por entre as os prédios da cidade, como quem vende o próprio interesse da vida e corpo, para passar algum momento sendo apenas autêntico em si. Se sentia, como já dito, vazio de algo que não se preenche tão facilmente e que tampouco é encontrado nos entrelaços em lençóis semi sujos de corpos de outrora e cheiros já evaporados pelo tempo que insiste em passar tão rapidamente quanto é possível voar.

A música no quarto ainda tocava em francês repetidamente, um único trecho. Sua vontade era de palavras tão meramente rotas, quanto o sorriso amarelo e espírito cansado, sem brilho, como se pode imaginar entre a razão e os sentimentos. Em sua visão ressaltava a imagem virtual e inebriante daquela quem mais desejava e que mesmo por míseros segundos, fazia sonhar em novos planos, ainda que em brincadeiras. Mas “a vida é o que acontece enquanto fazemos planos”... E o sentimento voltava a se repetir logo em seguida.

- Vazio... No mais amplo significado da palavra...

Os olhos pesavam em rubor de um dia mal dormido e das letras desgastadas em palavras sempre repetidas nos versos tão pobres quanto às rimas dos poetas pós-modernos. Parecia marionete de seu próprio ser, sem vida, vontade, e para variar, apenas funcionava no modo automático de sorriso no rosto e atividades mecânicas da labuta diária. Sentia-se, talvez, um romântico fora de época, apesar do comportamento torpe, e suas lembranças caminhavam num trajeto tão repleto de curvas como as do corpo da mulher que, em conversava sobre problemas e relacionamentos, pedia opiniões deitada no sofá e fazia transcender - inesperadamente - algo que de alguma forma, ela ou aquele momento, parecia preencher um espaço escavado pela vontade de apagar as memórias que um dia fora apenas presentes, não no sentido de tempo, mas que, agora, corrompia as vontades e dividia seu olhar entre o hoje e o nunca mais.

Lúcio Vérnon