terça-feira, 15 de janeiro de 2008

FLORES BRANCAS



































Flores... O aroma na casa era de flores, talvez jasmins, ou petúnias, não sei distinguir um cherio de flores, mas sei apreciá-las. Flores, a casa tinha cheiro de flores, ao fundo suavemente uma boa cansão tocava em algum quarto, e alí estava ele, com olhos fechados, para sentir a música, não escutava apenas com os ouvidos, mas com o coração, a mão estava sua caneta preferida, e um papel onde escrevia alguns de seus poemas, falando de amor, e amor, e amor.Entrei, ele não abriu os olhos, mas ainda assim me reconheceu como se tivesse me visto entrar, e pediu silêncio até aquela música acabar.
- Nada ficou no lugar,Eu quero quebrar essas xícaras,Eu vou enganar o diaboEu quero acordar sua famíliaEu vou escrever no seu muroE violentar o seu gostoEu quero roubar no seu jogoEu já arranhei os seus discos...
Que é pra ver se você volta,Que é pra ver se você vem...Que é pra ver se você olha pra mim. (...)
E continuou cantando, com um sentimento que sinceramente não conseguia se quer falar qualquer coisa, apenas escutava como se aquilo fosse minha vida, isso ficou marcado para sempre em minha memória, eu só tinha 19 anos, mulher na aparência mas menina ainda na cabeça, enquanto ele... Ah! ele era meu porto seguro, o amigo de infância, o namorado da adolescência e quem sabe o homem de minha vida no futuro. Sentia que ele cantava para mim, cantava por mim, e não abria os olhos, mas lágrimas de tanto sentimento rolva em seu rosto, tínhamos brigado alguns meses. E desde então não o vi mais.A música acabou, lentamente seus olhos se abriram, olhos castanhos, marejado olhos castanhos que sentia com uma capacidade que talvez, meu deus me perdoe, eu tenha até inveja. Abriu um sorriso, um daqueles sorrisos que não precisamos dizer mais nada, um daqueles sorrisos que dizem: que bom que veio; um sorriso que ao se abrir iluminava o quarto por tamanha pureza e tamanha vontade de dar um sorriso acolhedor.- Oi princesa - Como sempre me chamava, me comprimentou.Não consegui falar de início, apenas o abracei com toda minha força, o abracei para que nunca mais saisse perto de mim, para que entendesse que mesmo longe meus pensamentos estão perto, o abracei como quem não quer largar jamais.- Oi. - respondi aos susurros, não queria falar, apenas vê-lo, sentir meu coração bater mais forte, concertar meus erros, e acertar agora. Pedir desculpas. E falar o que realmente sentia.Ficamos abraçados por alguns longos minutos, mas minutos que para mim poderia ser a eternidade que continuaria da mesma forma, como era bom ficar nos seus braços... Como era gostoso sentir seu perfume...As vezes as coisas em nossa vida passa e não percebemos, as vezes simplesmente deixamos escapar a nossa felicidade por entre os dedos, e sem querer, quando vemos, não temos mais nada, não temos mais o nosso amor, não temos mais nossa motivação para ser feliz. Eu estava tentando continuar a história que havia dado um ponto final pensado apenas no racional. Mas ele era tão cavalheiro, compreensivo, companheiro, sabia que iria entender.- Perdão - disse eu, ainda sussurrando em seus ouvidos. - O que falei não era o que realmente queria, me enganei... Tentei mentir para mim mesmo, tive medo de enfrentar a nossa história sem saber o que aconteceria mais tarde...- Psiu! - olhou nos meus olhos e com os dedos a minha boca, pediu para não falar - Eu sei... Eu sei... E ainda com os dedos em minha boca, fechou os olhos novamente, e beijou-me os lábios como há alguns meses não sentia aquele beijo que ao tocar-me era capaz de me levar ao êxtase e gozos em apenas segundos. Um beijo tão puro e sentimentalizardo... Ah! que veijo... Como eu estava sendo tão louca de deixar minha felicidade ir embora assim, sem ao menos lutar, ou dar uma chance para que isso pudera acontecer, tão lindo, tão eterno... Tão amante...Nos levantamos da cama, sentido agora todo seu corpo, e nos meus sentimentos era já impossível disfarçar a felicidade que transparecia em meus olhos, e sorrisos que ao olhar para ele dava. Fomos ao quintal. E agora com as mãos à minha, cantarolava outra música, com o mesmo sentimento.
- Meu poeta eu hoje estou contenteTodo mundo de repente ficou lindoFicou lindoEu hoje estou me rindoNem eu mesma sei de quePorque eu recebiUma cartinhazinha de vocêSe você quer ser minha namoradaAi que linda namoradaVocê poderia serSe quiser ser somente minha Exatamente essa coisinhaEssa coisa toda minhaQue ninguém mais pode serVocê tem que me fazerUm juramentoDe só ter um pensamentoSer só minha até morrerE também de não perder esse jeitinhoDe falar devagarinhoEssas histórias de vocêE de repente me fazer muito carinhoE chorar bem de mansinhoSem ninguém saber porqueE se mais do que minha namoradaVocê quer ser minha amadaMinha amada, mas amada pra valerAquela amada pelo amor predestinadaSem a qual a vida ‚ nadaSem a qual se quer morrerVocê tem que vir comigoEm meu caminhoE talvez o meu caminhoSeja triste pra vocêOs seus olhos tem que ser só dos meus olhosE os seus braços o meu ninhoNo silêncio de depoisE você tem de ser a estrela derradeiraMinha amiga e companheiraNo infinito de nós dois
Ainda cantando, colheu uma das rosas brancas, que havia plantado para mim, sentou-se ao meu lado e antes que qualquer coisa eu resolvesse falar, deu-me outro beijo... e beijando fui-me cedendo, e explodindo todo um sentimento que havia guardado em mim que sabia que na verdade não seria mais de ninguém se não ele, meu Poeta, meu amigo, minha vida, o homem de minha vida que quase havia deixado escapar...O tempo apressou-se sem que nós percebecemos, e ao anoitecer, a lua cheia nos iluminou ainda no quintal, em baixo das árvores sentados no banquinho, coladinho a seu corpo sem nenhuma palavra a dizer, só momentos a sentir. Ele me encostou no colo e ficamos apenas a olhar a lua, as estrelas, passaria a noite alí com ele, ficaria alí com ele para sempre. E aos poucos fui-me adormecendo, com os carinhos que ele me fazia, me fazendo sonhar aos toques de sua mão leve.E já era dia quando acordei, Estava em minha cama, o telefone tocava- Alô - será que era ele me ligando? será que ele havia me trazido enquanto dormia para aqui?- Alô, gostaria de falar mesmo contigo... - respondeu a voz do outro lado o quem poderia ser?- Sou eu, lembra? O melhor amigo do Poeta - me recordei - Gostaria apenas de lhe informar... - sua voz estava cortada, e pelo visto com choro - O Poeta se foi, ele faleceu hoje.Desliguei o telefone. Como poderia aquilo? Estive com ele ontem, e recebi uma flor dele, fui ao meu quarto, vesti qualquer coisa e corri para a casa dele. Era verdade, Meu Poeta havia falecido, fui-me para o banco em choro, o mesmo banco de meu sonho, e lá estava a mesma rosa que ele havia me dado. Eu desperdicei com minha razão a minha felicidade... Eu joguei fora o meu amor, o meu Poeta... eu...




Lúcio Vérnon - Goiânia. 10.08.2007®