terça-feira, 15 de janeiro de 2008

OLHAR

E o que posso finalmente dizer? Ela estava lá, sozinha, e eu ao lado sem saber que palavras sairiam de minha boca, estávamos lá no banco de uma praça onde crianças brincavam incansavelmente, estava a sua frente inerte e sem saber o que fazer ou falar. Com toda certeza seria minha última chance, e aqueles verdes, aquela pele alva, cabelos negros me olhava um olhar de me fazer sentir enfeitiçado, de sentir-me prisioneiro incapaz de fugir dela. Era noite e a lua começava a sair, as crianças aos poucos iam embora com os pais que passavam nos cumprimentando, e ela ainda estava lá, ao meu lado, sem uma palavra apenas me olhava e esperava algo, como se já soubesse o que sentia naquele momento... Nunca levei jeito em falar de mim, nunca conquistei uma mulher, e eu tremia de medo, esfriava-me o corpo só de pensar que ali mesmo ela poderia mudar minha vida para sempre, sabia que muito provavelmente, nunca a esqueceria, mesmo eu já tendo vivido sentimentos mais intensos. Ela ainda estava lá e eu calado, paralisado diante de um olhar que até agora ao fechar meus olhos sinto o calor...- Seus olhos são lindos - disse eu finalmente meio engasgado ainda - nunca eu havia vistos olhos tão lindos como o seu...Ela ainda continuava calada, me olhava e nada mais, nenhum sorriso, ou expressão de desgosto, ou qualquer movimento se quer. O que aumentava ainda mais minha insegurança, e meu desejo de ouvi-la, observei a pele do rosto, e ela era tão veludosa quanto a pêssego novo, e de observar podia eu sentir sua respiração suave, calma, e esperando, mais nada.- Gostaria de lhe falar algo que há um tempo tento dizer-te, porém falta-me coragem para tal...Ela ainda continuava inerte, e agora apenas exalava um perfume de flores ainda mais intenso, perfume que ia me conduzindo a falar tudo o que sentia no momento, ia retirando minha libido do falar...- Bem, gostaria de dizer apenas que desejo passar o resto de minha vida aqui observando esse olhar, que me move sentimentos nunca antes experimentados, agraciando tua veludosa pela em comunhão a esse perfume que me leva a um delírio lúdico, em busca de um amor, que agora vejo brotar em minha frente como uma rosa simples e perfeita em um campo distante escolhida para dar-te. Gostaria de dizer-te que não entendo bem o que sinto, é tudo muito estranho para mim, mas se é um amor, deixo que fale por mim, quando com toda a certeza e loucura que um homem possa ter, não peço para namorar-te, ou beijá-la, tocá-la, mas peço para ter-te eternamente, acompanhando nossas vidas, me libertando do mundo que vivo sem ti.A lua já estava alta, olhei para ela, como estava linda... Uma brisa veio brinca com minha face, então fechei os olhos por um momento, e senti um beijo tocar meus lábios, ela havia me beijado, abri os olhos, olhei para os lados, sem entender. Ela não mais estava ali, e talvez nunca estivesse, talvez fosse apenas eu imaginando-a, e sentindo-a... Sozinho na praça recordando daquele olhar chorei.
Lúcio Vérnon®